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BLUMAS, SEDAS E COURO
A inteligência emocional e a prova da sensualidade
Houve um tempo, em algum momento na noite do pensamento humano, em que a emoção tentava sobrepujar o instinto, utilizando a beleza e libido como armas de domínio. Isto de fato teve lugar às margens do lago Bluma, na península de Ur, no continente perdido — o cenário era propicio para o evento que se apoderava da noite.
Belas mulheres de falsa beleza e suavidade orbitavam as margens do lago, bebendo os reflexos de prata decaídos das duas luas. Uma era a representação das emoções; a outra, a do instinto. Aquelas mulheres não sabiam, mas estavam por degustar os primeiros contatos do homem com a divindade plena. A batalha se intensificava quando, com seus mantos negros de seda e braceletes de prata e ouro, foram evocadas a patrocinar o poder do magnetismo humano que acabara de emergir. A luta era da liberdade de uma raça preponderante com a inquisição de uma outra emergente.
Foi dado a elas o conhecimento do magnetismo animal — a senha para sobrepujar a divindade locada em cada ser. Também perderam o coeficiente que pondera bem e mal, pois em essência este binômio não existe.
Seus corpos tocados pelo luar perceberam os contornos de Apolo, traduzindo perfeição em desejo; seus olhos receberam a sombra da noite, traduzindo profundidade em mistério; seus cabelos tocaram as águas do lago, perfazendo umidade em excitação; suas ancas, pernas e dorso, numa mutação selvagem, tornaram-se correntes impossíveis de qualquer mamífero masculinizado quebrar.
E assim se fizeram as Rainhas, formadas em núcleo e massa, Rainhas das sensações, das emoções, Rainhas da noite da seda e das paixões.
Às Donas agora formadas na solidão da floresta fez-se convidar os lobos das estepes; E, como se tratava de indivíduos do sexo oposto, estes, dominados e envolvidos, lhes cederam seus instintos da carne ao sangue. Os elementos da natureza vibraram em testemunho: o homem, a partir deste instante, era presa eterna da noite.
Se intitularam de Bruxas, pois a magia do poder que detinham era suficiente para fabricar a mirra do prazer e a alfazema da dor. O mundo não seria mais concebido como outrora: estava sacramentado o feitiço de Áquilla.
Desta forma, o mundo hoje não mais conhece o poder das duas luas. O lago de fertilidade e sedução está seco pelo sal das lágrimas dos homens dominados. Agora, nesta sociedade de poderes igualitários, a soberania ficou delegada a poucas mulheres que ainda têm em suas vagas memórias pedaços soltos de um ritual do passado.
Nas vagas do tempo, as sedas se mixaram com o couro e o látex. A prata e ouro deram lugar às pedras, e a sombria floresta se urbanizou em bares, boates, motéis. Porém, as Deusas que ainda vagam pela noite aí permanecem, sobrepujando e impondo seus venenos nas artérias do desejo de cada homem que desconhece a poção.
É com todo este testemunho de quem se encontrava as margens daquele lago, dividindo em uivos a noite com as Sacerdotisas negras do prazer, que se revela ao pensamento cognitivo humano que as texturas que fiam estas teias são demasiado fortes para serem partidas. Se as mesmas hoje necessitam de correntes e fitas de couro para expressar seu domínio, devemos entender que as atitudes concretizam a tendência, pois apenas estamos vivenciando uma expressão clara e realista do processo iniciado no passado, determinado pela própria natureza humana.
Saibam todos que, se a variante de liberdade que nos toca faz livres homens de bem, é porque muitas das fagulhas genéticas daquelas Sacerdotisas foram adormecidas no inconsciente coletivo de diversas mulheres que compõem esta sociedade neodecadente e ultradesenvolvimentista. Somente terá direito a receber seu servo mental e físico aquela que, com a inteligência dos tempos modernos, a sensualidade da sociedade consumista e o instinto perverso de suas ancestrais, reaprender a tecer suas teias na libido utilizando o veneno da atração...
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