entrevista

Vampiro de energias

Greco - Falar de SM é falar de infância.

Glauco - É lógico. As primeiras experiências são muito marcantes. Eu vejo a coisa do retrospecto, não pelo lado psicanalítico ou cientificista, eu gosto da reminiscência como uma forma de autocognição, de autoconhecimento. Quanto mais a gente exercita a memória pregressa, essa volta à infância, mais a gente clarifica o porque gostamos de algumas coisas.

Eu me lembro, particularmente como podólatra, que eu tinha desejo por pés antes mesmo de saber o que era sexo. Eu não tinha a menor noção de para que servia uma ereção, sentia tesão, e já era uma coisa associada aos pés. A única coisa que eu sabia é que tinha vergonha e tinha que esconder aquele tesão. Era uma coisa que não era certo e eu tinha que esconder. Aconteceu com você também?

Aconteceu, aconteceu. Eu acho que, por volta dos meus cinco anos, mais ou menos, já tomei consciência de que eu tinha atração por pés. Agora, não estava claro se era pé masculino ou pé feminino. Inclusive, até hoje eu mantenho esta dubiedade como uma coisa válida, por que o pé na verdade não têm sexo. Quer dizer, a sociedade convencionou que o pé feminino tem que ser menor, mais delicado, mais bem cuidado, maquiado, não é? Mas isto são convenções sociais. A rigor, nem mesmo o tamanho, nem qualquer outra característica diferenciaria o pé feminino do masculino, então já seria uma forma de exercer a pansexualidade através do pé. Ou seja: é um fetiche que simboliza um desejo sexual não definido e realmente, como você lembrou, a gente não estava ainda na puberdade, a gente não tinha uma ereção, a gente não tinha uma noção clara do que era um orgasmo mas a gente tinha o desejo, o desejo já era uma coisa clara.

E a sensação de que não era uma coisa muito aceita, de que era uma coisa meio estranha.

Exatamente por que a a gente não via ninguém fazer nada com o pé do jeito que a gente imaginava. Desde cedo nós aprendemos que o pé é uma parte desprezada do corpo, que só serve para apoiar o peso, para estar em contato com o chão, portanto sujo. Quando criança, a coisa que a gente mais ouve é "vá lavar este pé sujo", porque a gente anda descalço, então a gente pensa que, se o nosso pé é sujo, o dos adultos também é, e não serve para outra coisa a não ser chutar, no caso do futebol. A gente tem uma noção bem precoce disto, e quando a gente bate em alguém da forma mais violenta, é com o pé que batemos, então nós vemos que além de ele ter uma característica de, vamos dizer assim, descuido, ele ainda tem uma característica de agressividade implícita. Se manifestamos de certa forma algum tipo de desejo, de carinho com relação a esta parte do corpo, está se rebaixando, está de certa forma se humilhando ou degradando. Essa noção é muito intuitiva e talvez seja por isto que a gente esconda, porque a gente tem a noção, desde cedo, de que é uma coisa que deva ser escondida e não possa ser revelada, que as pessoas não possam perceber claramente que você gosta daquilo porque seria você admitir que você é inferior ou deseja se inferiorizar. Eu acredito que seja por aí a noção de clandestinidade da podolatria; essa noção precoce. Agora, uma experiência concreta que realmente, vamos dizer, me levou para a podolatria foi o seguinte: é uma que eu não conto em meu livro (O Manual do Pedólatra Amador, Editora Expressão, 1986) porque muitos pensam que ele é estritamente autobiográfico e na verdade não é, como todo trabalho literário, você fantasia e de certa forma romantiza certas passagens e aí você inventa alguma coisa. Agora, um episódio de infância que realmente aconteceu foi que eu morava num bairro muito periférico, onde a maior parte das pessoas não tinha a chance de ir à escola. Eram crianças de rua, e naquela região nós éramos os únicos que morávamos em sobradinhos geminados e que colocávamos os filhos na escola, com uniforme, aquela coisinha toda. Eu, como já era deficiente visual, logicamente não fazia o que os outros garotos faziam, não jogava futebol, eu não andava de bicicleta, eu evitava fazer coisas que pudessem me machucar ou expor meu olho, eu já tinha consciência de que devia proteger meu olho e ao mesmo tempo não tinha equilíbrio suficiente porque eu enxergava mais ou menos de um olho e não de outro. Com isso me concentrei nos estudos e virei um CDF e, como você sabe, em lugares assim o CDF é sempre o pó-de-arroz, aquele que é visado para ser maltratado. E logicamente eu estava numa faixa de idade na escola em que os moleques menores eram muito sacrificados pelos mais velhos, e então acontecia que na saída da escola eu era sempre cercado por uma turminha que tinha uma dupla inveja, inveja porque eu era um estudioso, era o primeiro da classe, e inveja porque eles mesmos nem estavam na escola nem podiam. Já estavam na vida, vendendo alguma coisa para ajudar a família, e as famílias nem os colocavam na escola, então eles me pegavam para Cristo e numa desta, eu me lembro bem, a situação era de você ter de ser o palhacinho do pessoal. Levavam a gente para um terreno baldio e, longe da vista dos adultos, das outras pessoas, eles formavam uma rodinha e obrigavam você a fazer todo tipo de palhaçada. E a coisa ia engrossando até virar realmente um abuso sexual. Mas antes do abuso tinha certas humilhações, uma humilhação bem típica que aconteceu comigo foi a seguinte: na porta da escola eles vendiam aquele quebra-queixo, que era um doce feito de coco, mas extremamente grudento, duro, você tinha que morder e puxar, era uma liga, e aquilo realmente não era todo dia que eu comprava porque minha mãe nem sempre me dava dinheiro. Quando eu conseguia comprar era realmente aquela coisa de todo mundo pedir um pedacinho, naquele dia eu tinha comprado e estava saindo da escola com o quebra-queixo e a turma me cercou, me levou pro terreno baldio. Eu estava na faixa dos sete ou oito anos, e essa turma que abusava estava na faixa dos 12, 13, portanto eles eram bem maiores e tinham muito mais malícia, porque já praticavam o sexo, já tinham o seu troca-troca, aquela coisa toda. A primeira coisa que eles fizeram foi tomar o meu quebra-queixo, morderam um pouco e depois o jogaram no chão, na poeira, pisaram em cima e me fizeram catar com a boca, descolar das solas dos tênis, então aquela experiência, entre outras palhaçadas que eu tive que fazer antes de ser abusado sexualmente, aquela preliminar se constituiu na porta de entrada para o sexo, e conseqüentemente toda minha podolatria assim, vamos dizer assim, idealizada alguns anos antes na infância, se concretizou daquela forma. Dali para a frente todas as minhas fantasias passaram a envolver humilhação, abuso, ou seja, poder controlando o ato sexual, que na verdade é tudo o que acontece na sociedade. O ato sexual está sempre envolvido por uma relação de poder, ainda que seja uma relação disfarçada socialmente, consentida, mas que não seja tão crua e tão cruel como foi comigo e como eu idealizo e fantasio. Mas ainda assim é sempre uma relação de poder, portanto uma relação sadomasoquista.

A arte da tortura

Um suplanta o outro?

Aliás, o verbo "suplantar" significa justamente você ficar por cima de alguém, no sentido figurado, é você superar alguém fazendo alguma coisa. Mas, no sentido concreto, suplantar é colocar debaixo da planta do pé, ou seja, "supplantare", no latim, era você colocar o pé em cima do pescoço ou do rosto da pessoa dominada, vencida. O gesto da vitória. Quando o gladiador fazia isto, ao mesmo tempo em que ele estava com o pé em cima do vencido, ele olhava para a platéia na arena, e a platéia, com o polegar, decidia com o polegar para cima ou para baixo, se ele deveria ser poupado ou morto.

Veio deste fato, ocorrido na infância, seu tesão por pés masculinos?

Exatamente! No caso, o pé masculino se tornou mais presente em minhas fantasias, não se tornou uma coisa obsessiva ou exclusiva, mas se tornou mais presente na minha fantasia por causa justamente da maior agressividade que existe entre os meninos. Ou seja: eu estava numa situação ambiental que favorecia este tipo de coisa, a turma do mais forte, coisa e tal. Quer dizer, a presença feminina ali era inexistente.

É, e a mulher não tem este comportamento.

Não tem! Exatamente. Então, as minhas fantasias começaram a girar em torno de situações mais cruéis, tendendo para a tortura. Eu nunca fui um adepto da tortura no sentido mais prático da palavra, de ser colocado em prática. Mas no sentido, vamos dizer, contemplativo, no sentido voyeurista, eu diria que a tortura é um estímulo para a libido insuperável. Eu sempre pesquisei a tortura, e até publiquei um trabalho a respeito, justamente por isto, porque ela é a situação de poder levada às últimas conseqüências. Ou seja: você tem "direito" de vida e morte sobre quem está à sua mercê.

Você tem o livre dispor sobre a pessoa.

Exatamente! Então, a tortura serve muitas vezes pela sua potencialidade, ela não precisa ser concretizada, a capacidade que o torturador tem de torturar já é o bastante para que a vítima se entregue; a vítima capitula e, ao capitular, ela vai fazer tudo o que o carrasco quiser, mesmo que ele não precise torturar.

Uma eterna dualidade

Eu li na "Folha de São Paulo" sobre uma cartilha do exército americano orientando as forças de repressão sul-americanas a respeito de tortura. Num trecho eles diziam que o torturador não deve ameaçar sua vítima de uma coisa que ele não possa de fato fazer; a vítima tem que ter a certeza de que ele pode realmente fazer o que esta dizendo.

Exatamente! Isso foi colocado em termos técnicos do ponto de vista militar, mas nada mais é do que a transposição de um conceito filosófico, e o sadomasoquismo é basicamente uma situação de Dominador/dominado. A escravidão que envolve uma relação sexual desse tipo é uma relação de posse. Agora, existe um lado mais interessante disso tudo, a polarização entre o dominado e o dominador faz com que um se coloque no lugar do outro. No momento em que você está na condição de dominado, ou seja, no momento em que você inclusive se satisfaz com isto, está automaticamente imaginando como está se sentindo aquele que esta dominando, ou seja, você se projeta. Por isso que ninguém é só sádico nem é só masoquista: você é sadomasoquista, porque você está também vivendo o papel do outro.

O falecido Cosam, quando bolava uma tortura, experimentava antes nele mesmo, para poder avaliar o que ele estava causando. Era como se ele precisasse realmente saber com que intensidade aquilo estava sendo sentido pela pessoa que ele torturava.

Mas eu quero ir ainda mais longe nesta conceituação, pelo fato de eu ter um problema de nascença, que é o glaucoma, e que me levou recentemente à cegueira. Eu fui me exercitando numa espécie de conformismo que não é fácil, porque você tem que se conformar com uma coisa que está por vir é e sempre pior, a cegueira progressiva. Então eu fui me exercitando numa prática existencial que me levou até o lado místico o lado transcendental do sadomasoquismo, um lado que eu poderia até definir como mágico. E, com isto, eu consegui adquirir um aprendizado sobre a própria condição humana, porque a minha inferioridade do ponto de vista físico, o fato de eu ser um deficiente, me levava a tentar compensar esta deficiência sendo superior aos outros em outras coisas, certo? Claro que isto teria que ser no plano intelectual, já que fisicamente eu não tinha condições. Então eu desenvolvi varias potencialidades intelectuais — para a poesia, para a literatura, para a música e para algumas manifestações artísticas. Para a erudição, enfim. Isso me levou a uma compreensão muito interessante, de que você, na procura desta compensação, está sempre numa espécie de corda bamba, que é uma linha tênue que separa um lado do outro lado, dois contrários, o Yang e o Yin, certo? Então, o sadomasoquismo é apenas uma faceta dessa dualidade que está presente em tudo. Ou seja: nós não somos apenas sadomasoquistas, nós somos mocinhos e bandidos, somos esquerdistas e direitistas, bons e maus, caridosos e impiedosos, nós temos uma ambivalência constante, permanente. A questão é que a maior parte das pessoas não tem consciência disto e o importante não é apenas você adquirir consciência disto, é você conviver em paz com isto, transformar isto numa coisa não apenas suportável, mas prazerosa. Por exemplo: teoricamente, se especula muito sobre a condição humana no seguinte sentido: o homem é potencialmente bom, e em seu idealismo aspira sempre o bem, a verdade, o certo. Então ele estaria fugindo do vício em direção à virtude. Sempre fugindo do mal em direção ao bem, fugindo da barbárie em direção à civilização, do lado animalesco do sexo em direção ao amor. Mas acontece que o homem não é isto, ele não foge de uma coisa para ir para outra. Por exemplo, para que ele seja mocinho ele não precisa abdicar da sua condição de bandido, e nem pode. Na verdade, quando se especula sobre isso o que se quer é um super-homem ou um marciano, não é um ser humano. Por exemplo: a coerência política é um absurdo. Ninguém é totalmente coerente, ou idealista, ou filósofo a ponto de por em prática uma ideologia, então esta história de que o ser humano tenderia à santidade, à igualdade, à perfeição ou à justiça é falsa. O que realmente acontece é que nós temos uma bússola, e o norte desta bússola é o bem, a verdade, são estes valores. Acontece que o ponteiro nem sempre está nesta direção, a gente está no meio do caminho, nós não atingimos a perfeição. Então esta bússola serve apenas para posicionar as coisas, mas não quer dizer que nós devamos estar sempre neste rumo. O que nós podemos fazer, eu acho que é interessante fazer, é: enquanto vamos vivendo, vamos tornando menos traumático esse relacionamento com o lado negro, o lado maldito, obscuro, vamos dizer o lado... negativo da existência.

Sem juízo de valor, não é?

Sem juízo de valor, exatamente. Então, o que acontece? Quando nós estamos na infância, por exemplo, não temos muita censura. Então a gente exercita melhor esta questão do sadomasoquismo, esta questão da crueldade. A criança, assim como tem um instinto maléfico muito acentuado, também é capaz dos atos de maior ternura, de maior amor, de maior desprendimento. A criança é o ser menos egoísta que existe, no entanto pode ser o ser mais sádico, mais cruel, mesquinho, então ela é este ser e não-ser ao mesmo tempo. Esta aparente contradição do ser humano não pode ser vista como uma coisa aberrante, nós temos que admitir isto como uma coisa natural da condição humana, conviver com isto. Não é fácil. O sadomasoquismo, no meu entender, é a única maneira de você exercitar dentro da sexualidade, esta contradição geral da existência. Por isso que eu digo que tem algo de mágico nisso. Eu, pessoalmente, descobri no sadomasoquismo uma espécie de canal, uma espécie de válvula, para canalizar toda uma força, uma energia que poderia ser muito destrutiva para mim mesmo, e no entanto eu consigo converter isso em fonte de prazer, de satisfação, até realização do ponto de vista psicológico. Então eu posso até transformar uma condição de sofrimento, de inferioridade, de discriminação, em algum tipo de compensação, em algum tipo de prazer sendo masoquista. Isto porque eu também sou sádico, sou capaz de ser sádico.

SM e paranormalidade

O teu lado sádico realizaria tuas frustrações, tua inferioridade?

Exatamente. Eu descarrego. O que a gente costuma chamar de desforra é uma aspiração legítima do ser humano e deve ser perseguida.

O sadomasoquismo, para você, sempre é uma forma de compensação?

Exatamente! Sempre é. Se eu encontro, como mais freqüentemente encontro, pessoas, vamos dizer mais frágeis do que eu, ou mais dóceis e submissas, eu automaticamente monto em cima. Eu exercito meu sadismo. Mas se eu me deparo com alguém mais mandão do que eu, mais autoritário, eu me humilho, eu me submeto. Agora, muitas vezes eu desperto em alguém, que aparentemente é frágil e dócil, algo que ele mesmo não sabia que tinha, que é justamente seu instinto sádico. Por que? Porque eu deixo esta pessoa perceber que muitas das suas frustrações decorem do fato de ela nunca ter chance de humilhar alguém, de ficar agüentando, engolindo sapos sem poder desforrar em ninguém. Então às vezes eu me torno o bode expiatório, a vítima, o Cristo dessa pessoa. Deixo que ela libere seu lado sádico. E com isso, automaticamente, eu estou absorvendo uma energia dessa pessoa, que vai me ser útil mas para frente. É aquela noção de que o guerreiro canibal, ao comer o corpo do inimigo, absorvia a bravura deste. É mais ou menos isso que acontece com a energia que circula numa relação SM, porque agora eu estou falando do lado transcendental, do lado paranormal da coisa. Eu cheguei a desenvolver, inicialmente até por brincadeira, ou por uma curiosidade meio sacana de usufruir o meu fetiche, uma modalidade de massagem que eu chamava de "massagem linguo-pedal", que era exatamente uma espécie de adaptação da acupressura, ou da reflexologia da planta dos pés, uma adaptação disso dos dedos para a língua, ou para a boca. Então, eu pratiquei isto com algumas pessoas como uma forma meio experimental, meio empírica de descobrir uma coisa que mais tarde eu vim a perceber que funcionava — que é você mexer com as energias da pessoa através de um ponto muito sensível, que é a planta do pé. Na realidade, ali você, através da sensibilidade da planta do pé, do zoneamento dela, realmente atinge certas partes do corpo. Não apenas o efeito fisiológico que você atinge com a manipulação da sola do pé, mas também através deste ato você pode canalizar algumas energias positivas ou negativas das pessoas. Então eu comecei depois, numa outra etapa, a desenvolver uma espécie de diálogo sexual que era no seguinte sentido: eu deixava (e agora que eu estou cego isso é mais viável ainda, isso funciona melhor) que a pessoa, enquanto eu estivesse massageando os seus pés, me contasse, me narrasse, confidenciasse alguns problemas, algumas frustrações, e especialmente algumas humilhações que tivesse sofrido, ou sofresse no seu dia-a-dia. E, ao narrar isso, a pessoa ao mesmo tempo estaria sentindo a minha manipulação. Dependendo do tipo de coisa que a pessoa estivesse contando e da parte que eu estivesse manipulando, às vezes havia uma sintonia fina de energia e realmente eu fazia com que esta pessoa se sentisse melhor e automaticamente eu me sentia melhor. É claro que, ao absorver as energias negativas dessas pessoas, eu teria que descarregá-las depois em outra ou mesmo, através dos meus orgasmos, liberar essa energia. Mas hoje eu já sei como fazer isso. Para resumir a história, o meu masoquismo funciona como um pára-raios de algumas energias que estão, vamos dizer assim, pesando em algumas pessoas. E, quando elas descarregam em mim, estão descarregando na posição de sádicas. Sendo que, quando elas absorveram essas energias, absorveram na condição de vítimas, de masoquistas inconscientes. Então eu faço com que elas se tornem sádicas conscientes para liberar uma energia negativa que elas acumularam num masoquismo inconsciente.

O falecido Henfil dizia que sempre que ele encontrou uma mulher que realmente gostava de espezinhar ela era de um nível sócio-econômico-cultural inferior. Você encontrou algo assim?

Encontrei. É curioso que pessoas assim, criadas num meio onde o machismo e a violência imperam, estão meio que embrutecidas, então para elas é mais natural descarregar energia de forma sádica. Isso não exclui o fato de que as pessoas que têm uma maior nível sócio-econômico-cultural precisem liberar algumas energias. A dificuldade maior delas é um desafio a mais para exercitar o lado SM. Aconteceu, por exemplo, de ter relação com um executivo, que levava uma vida totalmente regrada, todo certinho, seguindo padrões, convivendo com pessoas de um determinado status, e sem poder se expor ou poder sair da linha. Ele acumulava um tamanho grau de disciplina que aquilo tornava a sua vida uma verdadeira prisão, e ele só conseguiu descarregar um pouco desta energia quando eu percebi essa situação e me coloquei como um funcionário seu, "eu vou trabalhar para você, assim como você ocupa um cargo diretivo na sua empresa, eu vou ser como um dos seus funcionários, com a diferença de que eu vou executar ordens mais aviltantes, mais humilhantes do que aquelas que seus funcionários executam. Não que você não tenha poder para obrigar aqueles funcionários a fazer, é que o código da firma onde você trabalha não exige isso dos funcionários, mas de mim você pode exigir". Ele, surpreso, disse: "você se sujeitaria a isso?" Eu disse: "sim, claro". Então ele, com maior prazer, pôs em prática as suas vontades sádicas. Ao servir a este cara eu usei o código que ele precisava que fosse usado. É lógico que cada caso é um caso.

É muito difícil para as mulheres?

Paras as mulheres certamente, é mais difícil, porque ela está numa situação de inferioridade em relação ao macho em todas as culturas. Então, realmente é difícil para a mulher assumir. Mas, em compensação, quando ela assume, vamos dizer assim: ela desforra, desconta o que não só ela mas todas as mulheres agüentam. Ela parece que se torna uma representante da espécie, e aí, quando aparece uma que realmente resolve espezinhar, ela realmente espezinha.

Para além dos limites

Você encontrou alguma assim?

Encontrei. Agora, quando encontrei não tive um relacionamento íntimo com essa pessoa, porque eu já estava voltado para o lado do pé masculino. Mas eu conheci uma mulher que teria sido uma perfeita comandante de campo de concentração. Agora, a gente não pode se esquecer também que não se trata de encontrar a mulher assim ou assado, ou seja, encontrar uma mulher que seja tirana, ou encontrar uma mulher que seja mais sádica com outras mulheres ou menos sádica com os homens. O que a gente deve procurar é uma mulher disposta a se conhecer melhor e conhecer situações envolvendo SM. Nós devemos despertar nelas algumas coisas que elas ainda não praticaram. Não se vai encontrar a mulher tirana pronta, o que se vai é oferecer oportunidade para que elas exerçam a sua tirania e se descubram como tiranas. Que é o que Masoch fez, eu acho que a obra dele é o exemplo mais claro disso. Em "A Vênus das Peles", Wanda inicialmente tinha pudor, tinha escrúpulos de maltratá-lo, de chicoteá-lo, mas como ela foi percebendo que ele estava totalmente à mercê dela, foi se tornando cada vez mais cruel, até chegar num ponto em que ela superou as expectativas de Masoch, num determinado momento: em vez de ela chicoteá-lo, ela dá oportunidade ao amante que estava escondido, esperando, e ele é que vai chicoteá-lo. Isso para ele é insuportável, porque além de ter a humilhação de ser chicoteado por outro homem, tem a relação do ciúme. Porque, no fundo, ele ainda achava que a possuía e de repente ela está traindo. Mas ela pode fazer isso porque ele é apenas uma propriedade dela. Percebe? Nesse momento, ela ultrapassou todos os limites que o Masoch poderia imaginar. Por que? Porque ele conseguiu despertar nela o verdadeiro sadismo, que é não obrigar o escravo a fazer apenas aquilo que ele quer, mas sim o que ela quer, mesmo que seja contra a vontade dele. Mas essa é uma outra etapa do aprendizado: o escravo aprender a fazer algo que inicialmente o contraria, para depois ele perceber que tem que se sacrificar e fazer aquilo, porque afinal de contas ele vai estar fazendo para o prazer da pessoa que o domina, e numa espécie de ida e volta. Aí, sim, ele vai ter prazer: o prazer dele é posterior, aquilo pode ser um sacrifico extremo para satisfazer apenas uma vontade. Mas depois, ao perceber que satisfaz à vontade da dominadora, ele aí vai se satisfazer como masoquista. Mas é um aprendizado passar por um sacrifício desses. As pessoas às vezes não são capazes, porque isso envolve certos limites físicos — como, por exemplo, o nojo. Existe o limite da dor, existe o limite do ferimento. Às vezes o ferimento é grave, provoca uma mutilação, uma marca, uma cicatriz que não desaparece. Existe o limite do nojo, e o maior limite do nojo são as fezes. Então, vencer essas barreiras não é fácil. Mas, no momento em que o escravo faz isso, mesmo que seja numa relação de sacrifício, sem sentir prazer nenhum, depois que passa aquilo, quando ele rememora, quando volta à tona aquilo já numa forma de fantasia recordatória, aí ele se excita.

E ele passa a desejar?

Ele passa a desejar que isso aconteça de novo. Mesmo que, ao acontecer de novo, ele já esteja sem tesão, ele faça aquilo brochando. Mas, depois, vai voltar a fantasia da excitação. Isso prova que muitas vezes o SM é uma coisa ideal. Você faz mais de uma forma masturbatória do que propriamente no momento real, no momento concreto do ato. Mas isso também é legal.

Eu acho que existem dois tipos de sadomasoquistas: os que são presos dentro de um círculo vicioso, e os que são lineares. Explico. Conheço SM's que são recorrentes sempre na mesma fantasia, ele vai e volta na mesma fantasia; outros são lineares: são pessoas que começam com um tipo de fantasia e vão evoluindo cada vez mais até se distanciarem de suas fantasias originais e entrarem em outro patamar de SM, que alguns chamam de mais pesado.

Eu concordo com você e eu diria que a diferença entre um e outro é que aquele que tem a idéia fixa ou a opção por uma determinada fantasia é SM fetichista: ele precisa do fetiche, e o fetiche conseqüentemente vai ser sempre o mesmo, ainda que sofra pequenas variações. O outro, aquele que você diz que se distancia de algumas fantasias e evolui em direção a outras, em geral não é fetichista, o que o excita é a condição de estar sendo dominado/humilhado ou dominar/humilhar. Não importa muito o que ele deva fazer.

Ele é um sadomasoquista fundamental?

É! Ele é capaz de fazer qualquer coisa se estiver envolvendo uma relação de dominação e submissão. Aí pouco importa o que seja feito. Esses realmente são suscetíveis de ir até o infinito, inclusive pode até acontecer com eles o que aconteceu no "Império dos Sentidos", aquele filme, em que existe a castração e a morte. Quer dizer, são pessoas que podem vencer todas as barreiras, e você sabe que depois das barreiras do nojo e da dor a última e principal barreira é justamente a da morte. É onde o escravo permite que o Senhor ou Senhora o mate ou o obrigue a se suicidar. Eu acho que esta segunda categoria de SM é mais rara, mais difícil; a primeira categoria do SM fetichista, aquele que elege ou descobre uma determinada cena e procura sempre reprisar essa cena é mais comum. Eu diria que eu me enquadro nesta primeira categoria, só que eu já abstraio dessa cena, ao reprisá-la eu não estou apenas na condição de ator: eu repriso a cena, só que eu tanto posso ser o diretor, o ator ou o espectador. Eu tenho a capacidade de me revezar nos papéis. Eu acho que isso é que é interessante. Porque eu acrescentaria uma outra categoria: o SM fetichista, o SM não-fetichista, e uma categoria que permeia ambas, o SM voyeurista: é aquele pode praticar aquilo que ele gosta ou se compraz em assistir, e esse assistir é uma coisa muito abrangente. Assistir significa não apenas ver o que os outros fazem, mas recordar o que ele mesmo fez ou antecipar aquilo que vai acontecer. Eu ainda tenho mais uma particularidade: poderia citar que, além do fetichismo do pé, do calçado, tenho um outro elemento que é fundamental, que é o cheiro, o olfato. E o cheiro do pé é característic. Por isso eu faço questão dele. Cada parte do corpo tem seu cheiro peculiar, e o cheiro do pé é o chulé. No caso do pé masculino, esse chulé é ainda mais acentuado. Eu quero que seja exatamente assim, que isso não se disfarce, que não se amenize, que não se torne uma coisa atenuada. E se explica em parte porque, desde criança, eu já era deficiente visual, então, logicamente, os outros sentidos vão compensando a deficiência visual, o tato, a audição, e o olfato. No caso do prazer podólatra, o olfato é um complemento.

Para todo podólatra que eu conheço, mesmo que ele não goste do chulé, o cheiro do pé, o cheiro do sapato, o cheiro do couro, da meia, é essencial. E quando a pessoa, homem ou mulher, perfuma o pé, quebra boa parte do fetiche, que é o cheiro.

Exatamente! No caso da podolatria associada ao masoquismo, o cheiro tem uma função que eu acho que complementa todo o ato. Se o cheiro é forte, ou teoricamente desagradável, como a civilização decidiu convencionar que seria um cheiro anti-higiênico, é mais um motivo para que a pessoa se humilhe. Além de estar sendo subjugado, além de estar sendo espezinhado, tem que suportar um cheiro que seria "desagradável". Ou seja: a essa altura, já se tornou agradabilíssimo por esse fato mesmo, mas acontece que essa barreira do nojo, no caso do pé, é exatamente o cheiro que vai determinar. Então, é um elemento fortíssimo. Além do que, como nós dissemos agora há pouco, grande parte do prazer do sadomasoquista está em reviver mentalmente as cenas de humilhação mais do que praticá-las. O cheiro é um elemento muito forte, porque ele ajuda a memorizar. A memória visual é forte, a auditiva também, e olfativa é muito. Você é capaz de recordar um cheiro que sentiu na infância, e algumas lembranças ficam marcadas por causa do cheiro principalmente, mais do que por outros fatores.

Com certeza! Na minha mente fica muito o som, o cheiro, o tato e, é claro, a imagem. O som do pé com meias finas roçando no sapato é um som que ficou muito na minha cabeça. E aquele cheiro do pézinho quentinho quando sai do sapato é uma delícia.

É um cheiro vaporoso, que não é necessariamente chulé. Muitas vezes não chega a ser chulé, é um cheiro que transpira mais a umidade do couro aquecido do que um cheiro de suor. Mas é um cheiro característico.

No túnel do tempo

Você falou de uma lado mágico do SM. Existe uma grande preocupação de muitos adeptos do SM em saber por que é SM. Há uma necessidade de o cara saber por que transcende tanto assim? Quer dizer: independe de fatores sociais, culturais, raciais, faixa etária, opções sexuais, independe até de nacionalidade.

Independe de latitude ou longitude, é uma coisa que independe do tempo e do espaço.

Sim! Duzentos anos atrás, ou daqui a 500 anos, a coisa se repete em todas as culturas em todas as sociedades. Algumas pessoas chegam a imaginar que é reencarnacionista. Você falou em coisas mágicas, místicas. Em que sentido você acha que isso transcende?

Eu não levo tanto pelo lado da questão reencarnacionista ou uma coisa de transmutação, porque eu acho que isso restringe um pouco o âmbito: quando você pensa em termos universais, que extrapolam a condição humana, eu acho que a visão de mundo, a

visão filosófica que agente deva ter não pode ser vinculada a questões tão temporais. Porque a questão reencarnacionista leva à temporalidade, já é uma limitação. Porque reencarnação pressupõe que você viveu pregressamente em outras épocas e que vai viver, e a coisa nem sempre precisa ser analisada dessa maneira. E o que a gente deve ter em mente é o seguinte: filosoficamente falando, o que existe é apenas o momento presente, a noção do "eu" que é um centro não é uma noção concêntrica, ela está relacionada também a um momento atual. Se você considera a coisa pelo ponto de vista filosófico, só o "eu" é a verdadeira existência, porque o ser pensante pensa a partir da sua própria existência: o resto é apenas o conhecimento que essa pessoa tem do mundo, e a sua existência se resume ao momento presente. Então, o passado e o futuro não existem, a não ser hipoteticamente. Do ponto de vista da libido, o que realmente importa é você sentir prazer, ou melhor, usufruir o prazer no momento em que você tem vontade.

A frustração no meio SM é grande. Como se pode resolver isso?

É lógico que o desejo nem sempre encontra a forma imediata de ser saciado. A frustração do desejo é uma coisa que torna uma pessoa traumatizada ou inferiorizada. Eu acho que aí é que entra o lado sadomasoquista. Ela tem que ter uma consciência de que, no momento em que ela está desejando, tem a oportunidade de saciar seu desejo e pode se considerar uma pessoa realizada, pode exercer seu lado SM. Quando ela não tem essa oportunidade, tem que se conformar com essa frustração, e isso também é uma forma de relação sadomasoquista: ou seja, tanto na privação quanto na satisfação do desejo existe a possibilidade de exercer o sadomasoquismo. O que a maioria das pessoas não percebe é que todos nós somos sadomasoquistas e estamos praticando de alguma forma alguma relação sadomasoquista.

O que diferencia é que a maioria das pessoas não tira prazer disso, não converte em prazer uma situação qualquer.

Exatamente! E só aqueles que são praticantes do sadomasoquismo é que estão tirando algum proveito. O problema é que a maioria dos praticantes do sadomasoquismo também não têm consciência de que aquele ato transcende em muito a mera satisfação da libido; aquilo, na verdade, está canalizando uma energia existencial muito importante, da qual depende o próprio equilíbrio da pessoa.

Uma cultura da dominação

E a sociedade?

Uma das contradições é esta: a sociedade, como está estruturada, a civilização, no ponto a que ela chegou, é extremamente sadomasoquista nas suas relações. A estrutura piramidal da sociedade, a estrutura de classes em que existe sempre uma hierarquia, uma base dominada e uma elite dominante, é extremamente sadomasoquista. Só que a sociedade não assume isso e então ostensivamente apregoa, preconiza e estabelece sob a forma de códigos que os seres humanos são todos iguais, e que devem buscar a igualdade, e que a lei é igual para todos, e que todos devem ter as mesmas oportunidades e etc. Então, o ser humano vive numa espécie de contradição, numa espécie de engodo, achando que deve perseguir um ideal igualitário, quando na prática ele está vivendo o tempo todo uma relação sadomasoquista.

O futebol é uma forma de relação sadomasoquista aceita pela sociedade. Porque o que todos gostamos é de poder humilhar o vizinho ou amigo que é torcedor do time perdedor. É uma humilhação aceita.

Você citou um ótimo exemplo. O ato imediato entre as torcidas qual é? É a zombaria, é você ridicularizar a torcida rival. E acho que a melhor expressão disso é o "olé". O "olé" é uma das coisas mais humilhantes que existem. O "olé" de um jogador sobre o outro e o da torcida. A sociedade envolve esta contradição. As pessoas estão o tempo todo exercendo seu papel dentro do mecanismo social. A maioria não percebe que está vivendo uma relação sadomasoquista. O sadomasoquista é um privilegiado por que já percebeu isso e está traduzindo para sua vida sexual.

Por que ele é consciente?

Alguns participantes do jogo sadomasoquista são os mais inconscientes de todos. São aqueles que estão tendo a oportunidade e nem sequer avaliam a grandiosidade daquele momento, como aquilo é bonito, aquele gesto de descontar, de ir à forra. E existe a contrapartida também: o ir à forra é gostoso como combustível do SM, mais muitas vezes o combustível mais gostoso ainda é quando o dominador está abusando do dominado, que por sua vez não tem como ir à forra. Ou seja: ele vai sempre estar por baixo. Eu me lembro muito da frase do Orwell, no livro 1984, que ele põe na boca de um personagem no momento em que ele está torturando a vítima, depois que a vítima já passou por várias torturas, já percebeu que não tem mais escapatória e que do ponto de vista psicológico não dá para tentar enganar o torturador. Nesse momento, o torturador diz para a vítima: "Você quer uma imagem do futuro? Imagine uma bota pisando um rosto. E imagine que aquela bota sempre estará ali e aquele rosto estará sempre ali para ser pisado. Essa é a imagem do futuro da humanidade". O que Orwell faz ao colocar a coisa de tal forma é que o oprimido vai sempre ser oprimido e nunca terá a chance de desforra. Eu me considero um privilegiado porque, na minha trajetória, eu consegui transformar toda a minha condição de inferioridade, de deficiente, a minha inferioridade de discriminado enquanto incapaz de certas coisas e mesmo as minhas frustrações de artista — porque evidentemente eu não estou entre os maiores expoentes da literatura nacional, ou da música, fiquei no meio do caminho — essa condição também me tornou privilegiado, porque eu aprendi a conviver com essa inferioridade, usufruindo, tirando algum prazer disso. A maior contradição, a coisa mais gostosa que existe é que justamente quando eu estava por baixo, engraxando botas com a língua, limpando a sola de uma bota com língua, na condição mais inferiorizada, tendo a satisfação plena de que toda aquela energia sádica do meu opressor estava sendo absorvida por mim de tal forma que aquilo ia se converter numa força interior. É claro que se eu desenvolvi essa capacidade. Não quer dizer que todos sejam capazes de serem pacientes e canalizem, pela submissão, os seus desejos e conseqüentemente transformem algumas frustrações em satisfação, e com isso se equilibrem melhor. No meu caso, eu pego essa fórmula pelo lado inverso: é a outra face da moeda. Não que eu seja psicologicamente frágil. Pelo contrário, tenho uma personalidade forte, dominadora, eu tenho uma tendência natural para exercer o poder. Mas eu me deixo subordinar e humilhar porque, no momento em que a pessoa está tendo a oportunidade de ser mais poderosa do que eu, ela tem a chance de descarregar certas coisas, e eu sei como absorver.

O sadomasoquismo é uma possibilidade de libertação?

É!

Talvez seja a TESOLOGIA DA LIBERTAÇÃO?

Sim! Exatamente.


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